Saudade não é dor

Esta semana começou com a lembrança da minha mãe. Já fazem 14 anos que partiu, anos estes que já ultrapassam o número dos que vivi com ela. Não o digo com raiva ou revolta, digo-o porque não me parece tal devido à intensidade com que ela marcou a minha vida. Eu não poderia ter desejado melhor mãe.

Porém, a minha lidação com o luto não foi tão lógica como se é esperado. Começou a dar sinais que eu o ignorava e terminou de uma forma que eu não sabia que era a indicada. Tanto que, foi uma autêntica montanha-russa vivê-lo e olhá-lo de frente.

Sei que o ano de 2020 foi de grande tensão para todos. Mas, o meu foi marcado como um ano de desistências, de aprender a abrir mão. Atenção, não digo que me entreguei ao desgaste e frustração, apenas aprendi com a ajuda preciosa da minha psicóloga que precisamos desistir de algumas coisas ao longo da vida – desistir, parar de insistir. De uma maneira mais simples: é preciso perder para ganhar.

Dei por mim confrontada que não queria, de forma alguma, abrir mão da dor da perda. Inocentemente, acreditava que isso implicaria apagar da minha memória tudo o que vivi com a minha mãe e tudo o que ela significava para mim. E, confesso sem receio, achei não fazer sentido o que me estava a ser pedido. Até que aprendi, com calma, que abrir mão da dor da perda seria uma forma de poder honrar dignamente a sua memória e, obviamente, isso não implicaria apagá-la. Por que, verdade seja dita, isso é impossível que aconteça. A minha mãe foi, sem sombra de dúvida, a mulher que mais influenciou a minha vida e que me deixou profundos fundamentos de uma vida entregue nas mãos Daquele que nos amou primeiro. Sem temer o que quer que seja, desde doenças ou até a morte.

Se doeu abrir mão e finalmente dizer adeus? Muito! E embora a literatura tenha um poder enorme e as palavras possam ser livre e ousadamente usadas… lamento, mas não tenho palavras que descrevam o quanto doeu. Mesmo assim, valeu a pena. O peso que trazia no meu coração saiu e eu senti-me livre. Com isto, não digo que parei de chorar por ela. Eu ainda choro muito. Reservada ou abertamente eu choro. Mas aprendi que existe uma grande diferença entre chorar de dor e chorar de saudade; e que cada lágrima é recolhida por Ele e que entende melhor que ninguém o que elas significam.

Talvez possas discordar de mim – força, és livre para isso – porém, eu fui-me apercebendo que saudade não implica dor. A dor ela pode ser deixada, a saudade jamais. A saudade é o ponto principal para que eu continue a honrar a sua memória; é o que me faz conseguir descrever o cheiro dos seus perfumes preferidos e da sensação que tinha cada vez que ela me dava um beijo de bom dia. A saudade permite-me relembrá-la como ela era, verdadeiramente. Enquanto a dor trazia o foco da doença e sofrimento. A saudade aquece-me o coração ao recordar que a verei novamente, graças a Cristo.

15 comentários em “Saudade não é dor

  1. Muito inspirador e abençoado o teu texto, Ana! Jesus Cristo, mais do que a melhor resposta, Ele É a resposta. Ele preenche qualquer vazio que haja no nosso coração, seja quando esse surge sem que queiramos, na perda de alguém ou algo nosso, e quando nós próprios o criamos, ao abdicarmos também de alguém ou algo nosso. Pois Ele se deu por nós, e agora, ao darmos tudo de nós a Ele, Ele torna-se tudo em nós. Graças a Ele, não importa a tempestade que venha e quantas lágrimas derramemos, a alegria e a paz que Ele nós dá ultrapassa todo o entendimento humano. Que Deus continue a te abençoar, dando-te essa mesma alegria e paz em todo o tempo, Ana, para a Sua glória e honra, porque d’Ele, por Ele, para Ele são todas as coisas! Beijos!

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  2. Ola Ana Margarida…peço licença para deixar meu comentario sobre…acredito que nao seja um adeus e sim um ate logo …guarde as recordacoes c todo amor que sei q vc tem por sua amada mãezinha em teu coração …ore sempre por ela…fique c Deus.abraco fraterno

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    1. Olá Renata!
      Muito verdade, não é um adeus a ela mas à dor. Creio que sim, existe muito mais além desta vida.
      Muito obrigada pelas suas palavras e por ter lido o texto.
      Beijinhos

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  3. Perda, despedida, luto e dor são realidades que podem ser transformadas em ganho, saudades, esperança e vida eterna. Amiga que vc continue caminhando até o Grande Dia de ver Aquele que te mostra o caminho de sabedoria para ter a esperança e certeza a verá novamente. Partir é difícil mas o reencontro será glorioso. Beijinhos linda.

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  4. Ana minha linda! Que belas palavras e quão encorajador…podemos aplicar cada uma delas em diversas áreas da nossa vida! Obrigada por compartilhar e por escrever!!! Saudade tua

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  5. Que bom saber que vc está sabendo lhe dar com isso, por mais doloroso que seja, não podemos ficar preso a esta dor. Cada um tem seu tempo e modo de reagir, também não seria nada bom ser aquele tipo de pessoa que tenta se enganar quanto a uma ferida aberta… É preciso enfrentar em algum momento, e seguir em frente, sim sem jamais esquecer a pessoa querida.

    É sem dúvida reconfortante demais a fé em Cristo Jesus, saber que a pessoa está num lugar melhor, e mesmo nós aqui não estamos sozinhos. Eu aprendi muito e evolui muito vendo a doença da minha mãe evoluir, desde 2017/18 (sou péssimo com datas rsss) minha oração era também por um milagre, se assim fosse a vontade de Deus, do contrário a única coisa que poderia dizer era: Muito Obrigado, pela mãe maravilhosa que tive, fazem 3 meses que ela partiu, pude conviver muito tempo com ela, eu tenho 40 anos e ela iria completar 71. Escrevi sobre isso no meu blog.

    Alguém pode dizer, então Deus não fez o milagre que você pediu? É difícil isso né, as pessoas interpretam um Deus como alguém que fica sentado escolhendo quem morre, quem vive, e esquecem que a vida é cheia dessas coisas, doenças, acidentes, alegrias, conquistas etc… A minha pronta gratidão a Deus me ajudou a enfrentar isso e aceitar de forma mais do que surpreendente (não sou santo muito menos calmo rsss).

    Não creio num Deus de circunstancias, não foi ele quem a levou e sim a doença, assim creio, então podem voltar a perguntar, mas então Deus lhe negou aquele ultimo milagre?
    Nesse ponto sou bastante objetivo, como disse antes a vida tem dessas coisas estamos vulneráveis ao infortúnio, mas também próximos ou no caminho das felicidades.

    E os milagres foram acontecendo ao longo da vida dela, na minha vida, no dia a dia de tanto amor tanta alegria que só deixa saudade e como vc bem disse o compromisso de “honrar a sua memória”…
    Os milagres estão ai, basta ter olhos de gratidão pra percebe-los.

    Parabéns pelo exto e obrigado pela oportunidade de falar sobre o assunto.

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    1. Olá Ygor!
      Em primeiro lugar quero dizer que estou solidária contigo. Ver alguém tão importante e querida para nós partir é como se nos tirassem o chão. Por isso, muita força! Que Deus conforte o teu coração e te lembre que a Sua fidelidade não acabou.

      A minha mãe passou todo o tempo sempre confiante que seria curada. Nós orávamos o mesmo. E, acredita, na família fizemos a mesma pergunta e tivemos pessoas que nos questionaram também. Sabes o que aprendi? Como disseste, e muito bem, foi a doença que levaram as nossas mães. Mas, nem mesmo as doenças puderam fazer com que Deus perdesse o controlo. Até porque, no lugar que elas estão a doença não entra, não existe mais doença nem dor. Cristo quando se entregou na cruz fê-lo de modo completo. Então, a doença para elas acabou e agora elas desfrutam da eternidade em paz.

      Os milagres acontecessem ao longo da vida, os milagres começam a partir do momento em que entramos neste mundo. E foi um milagre a oportunidade que Deus deu de termos mães tão especiais.

      Obrigada por partilhares a tua história, obrigada pelas palavras. Muita força!

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