Gratidão, um bicho de sete cabeças

Após ler o livro “O Sofrimento nunca é em vão” da Elizabeth Elliot (obrigada, Kelly), eu passei a olhar para a vida com outros olhos. Ao início, senti-me bastante desconfortável porque não é propriamente um assunto fácil de se tratar ou ouvir. Contudo, é tão natural nesta vida quanto o acto de respirar.

Dos capítulos que mais me inquietaram, a gratidão – sem sombra de dúvida – foi o conceito que mais desconforto me causou. Para que sigam o meu raciocínio, quero aplicar aqui a pergunta que a autora coloca: «Quando alguém nos dá um presente que não gostamos, qual é a nossa reacção?». Certamente, tal como eu, vocês agradecem. Mesmo que o presente não seja do nosso agrado. O importante é não mostrar má cara nem deixar que a pessoa fique triste. Agora, a pergunta que eu faço é: por que razão, então, não somos mais gratos pelo que acontece comumente na vida, mesmo que não seja da nossa preferência?

Aqui é que percebo que começa a fazer sentido o facto de dizer que a gratidão parece um bicho de sete cabeças. Estamos mais confortáveis e habituados a querer ou esperar por agradecer apenas quando temos um bom motivo para tal, quando acontece algo do nosso agrado. Porém, ao longo da nossa rotina, temos uma grande dificuldade em conseguir agradecer intencionalmente. Até mesmo por algo que não temos. Ou quando, simplesmente, não acontece nada e a vida continua igual ao de sempre.

Das coisas que mais concordo com a autora do livro é que o conceito de aceitação é fulcral para a gratidão. As duas caminham lado a lado. A partir do momento em que aceitamos aquilo que não temos poder para mudar ou forçar, começamos gentilmente a ser mais gratos. Deste modo, não há como negar que a gratidão gera satisfação plena.

É difícil agradecer intencionalmente, principalmente, pelo que ainda esperamos ou não temos. Mais difícil é agradecer pelo “mesmo de sempre”. Porém, acredito que se tais coisas comuns desaparecessem, aí sim daríamos valor e encontraríamos o sentido pelo qual se fazem presentes todos os dias.

Viver em plena gratidão parece das coisas mais controversas de sempre. “Dêem graças em todas as circunstâncias…” (1 Tessalonicenses 5:18), parece demasiado difícil de se aplicar. Mesmo assim, o segredo está em mudar a óptica pela qual queremos ver a vida, e a forma como a queremos aproveitar. Sendo que ela é única, ela é um risco. Não temos outra. E, a sério que a vamos gastar a queixar-nos e lamentar-nos pelo que não temos ou pelo que não queremos… ou vamos começar por aceitar e caminhar até a um coração genuinamente grato?

Atenção, com tudo isto não digo que temos que aceitar e ser gratos por questões injustas, a morte de um ente querido, um acidente, etc… mas, aprender a levar a vida sabendo que não dá para voltar atrás, e aceitar. Eu, por exemplo, jamais vou ser grata pela morte da minha mãe! Mas, sem dúvida alguma, sou grata pela mãe que tive e pelo legado que me deixou. Aceito a morte, sabendo que não tenho como a trazer de volta. Porém agradeço pelas ferramentas que tenho para honrar a sua memória.

Penso que o meu pensamento já foi percebido por vocês e, sendo assim, gostaria de terminar com uma frase da autora que mudou totalmente a minha forma de pensar e lidar com a vida: «Não são as experiências da nossa vida que nos transformam, mas a nossa reacção a tais experiências». Por isso, em palavras, deixo-te o meu apoio para que não esperes as coisas acontecerem para que tenhas pelo que te alegrar ou agradecer. Nem te afundes em sofrimento pelo que já foi ou pelo que não chega. Lembra-te: a vida é só uma, e Deus deu-ta como dádiva. Uma vez que foi Ele que te deu, pode sim ser carregada de abundância e esperança. E é exactamente isso que a gratidão carrega consigo.

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