Passo de Esperança de Clemente de Lolo Filho #102

O encontro com alguns livros é inusitado. Algum dia antes do alvoroço todo dessa pandemia, parei eu no balcão da biblioteca pública da minha cidade para o registro de alguns títulos que tomava emprestado e Passo de Esperança estava ali numa pilha oferecida aos leitores, eram presentes de alguma data comemorativa. Eu olhei, ignorei, mas acabei como uma sempre curiosa perguntando a atendente o que era e para quê era aquela pilha. Ela respondeu que eu poderia escolher quantos quisesse.

Passo da Esperança é um pequeno romance do autor Clemente de Lolo Filho, publicado pela Editora Scortecci em 2008. É dito sobre o autor que nasceu em São Paulo, estudou Medicina no Rio de Janeiro, e já aposentado veio percorrer os caminhos da literatura aqui em Belo Horizonte.

O enredo é muito interessante, principalmente para mim que não tinha ideia do que esperar. Há quem diga o contrário, mas ler um livro desvendando a cada página aquele mundo, aqueles personagens, aquele caminho totalmente desconhecido é uma experiência incrível.

O primeiro personagem que conhecemos é Gerônimo Garcia de Vasconcelos, um jovem forte de família boa que se propõe a largar o conforto da casa de seus pais e os braços de sua noiva para se lançar em uma aventura pelo Sertão Bruto. E o que seria isso? De Sertão Bruto o autor chama as terras dalém da civilização, as terras desconhecidas, sem estradas, sem recursos, habitada por animais selvagens e outros perigos que muitos por esse Brasil afora ao longo da história resolveram enfrentar afim de encontrar um lugar para chamar de seu.

“Forasteiro: quando der o primeiro passo além desta sinalização, já se encontrará dentro do sertão desconhecido. Nesse exato momento, o senhor deu as costas ao Mundo Civilizado e adentrou o Sertão Bruto. Deixou a intimidade dos seres humanos da cidade para ir conviver com a Flora e a Fauna selvagem. Seguindo em busca do desconhecido, o que será de grande ajuda é a Esperança que está levando consigo…”

Nos primeiros capítulos acompanhamos Gerônimo nessa aventura empolgante e tão incrível na medida em que vamos nos dando conta que se trata de uma narrativa da vida real de nossos antepassados pelo interior desse imenso Brasil. Esse é um ponto muito alto desse livro: nos dar a oportunidade de nos aproximar daqueles tantos que enfrentaram o absurdo em cima dos seus carros de boi, abrindo o caminho para a civilização passar.

Através de Gerônimo e dos seus descendentes, pois essa também é uma saga familiar, vamos aos poucos, nas entrelinhas, percebendo as trilhas de pensamentos que o autor quer nos levar. Dos vários temas que esse livro toca (esperança, meio ambiente, amizade…) me chamaram muito atenção o progresso e a maldade humana. Inclusive me lembrei muito do livro “Minha Vida” do Tchekhov, que também toca nesses temas. Como nessa primorosa obra do autor russo apesar de nos levar em um rumo diferente, em Passo de Esperança nos é passada a ideia de como a corrupção humana vai chegando junto com o progresso, de como a maior concentração de pessoas: as cidades grandes, também são centros de tantos males. Veja esse trecho: “- Meu pai, de todos os animais que existem nesse mundo, o mais perigosamente selvagem, e que oferece toda sorte de riscos ou perigos, chama-se Homo Sapiens, é por isso que onde moram muitos seres humanos a vida é sempre mais perigosa.” (p.12)

Ao longo da narrativa vamos acompanhando não só a história de uma família como a formação e desenvolvimento de uma cidade, conseguindo quase que visualizar esse povo brasileiro tão humilde, essas pessoas simples que só buscavam pelo seu chão. E nisso guardadas as devidas proporções, Clemente se assemelha também ao autor russo que de forma magistral registrou em suas obras o espirito das pessoas de um tempo e de um lugar específico. Porém, muito diferente do desencantado Tchekhov, Clemente exalta o campo, se lamentando várias vezes do progresso ser inevitável, como se esse fosse o maior vilão da humanidade. Em outras palavras assume o campo como lugar da inocência e as cidades como lugares malignos.

Bem, apesar de pensar muito diferente do autor sobre o progresso e a maldade humana, de ter convicção por doutrina e observação que o mal gerado pela natureza humana se esconde em cada lugarejo desse mundo, eu gostei da obra e se me encontrar com outro título do autor com certeza vou ler.


+INFO Livro: Passo de Esperança | Autor: Clemente de Lolo Filho | São Paulo: Scortecci, 2008 | 134 páginas

Avaliação: 3/5

Encontre aqui: Editora

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2 comentários em “Passo de Esperança de Clemente de Lolo Filho #102

    1. É uma obra curta e simples, que pela boa ideia poderia até ser expandida num romance maior. Imagino até que você iria gostar.

      Quanto a temática da maldade concordo contigo. Percebo cada vez mais essa discussão na sociedade (Youtube, Cinema…) e creio que na literatura esteve presente desde sempre.

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